Queimaduras, cada vez mais perto de um tratamento eficaz contra a dor

As queimaduras são uma das patologias mais frequentes e a sua dor associada um dos mais incapacitantes. Embora os avanços da medicina aumentaram a sobrevivência de pacientes com queimaduras de primeiro e segundo grau, o desafio de hoje está em conseguir um tratamento eficaz para aliviar essa dor crônica associada. Um grupo de cientistas demonstrou que a aplicação de uma toxina proveniente de veneno de tarantula permite bloquear a transmissão da dor. Um alvo terapêutico que pode ser o primeiro passo para o desenvolvimento de um fármaco adequado para humanos em cerca de 5-10 anos

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A partir da segunda metade do século XX ocorreram grandes avanços em tratamentos que conseguiram aumentar a taxa de sobrevivência de pessoas com parte do corpo afetado por grandes queimaduras em países desenvolvidos, bem como na prevenção das mesmas.

No entanto, estes avanços não foram a par dos progressos realizados para a busca de um tratamento eficaz da dor e permanente associado a queimaduras graves. E é que, as opções clínicas para tratar a dor associada a este tipo de lesão e sua recuperação são ainda reduzidas e produzem efeitos colaterais indesejados.

De acordo com dados fornecidos pelos Centros, Serviços e Unidades de Referência do Sistema Nacional de Saúde (CSUR-SNS), estima-se que cerca de 120.000 espanhóis recebem assistência médica anualmente por queimaduras; dos quais 5% (6.000 pessoas), necessitam de internamento hospitalar em unidades de queimados, por se tratar de queimaduras graves.

Recentemente, uma equipe multidisciplinar de cientistas do Reino Unido, do Imperial College London, entre os quais se encontra o neurobiologista alicantino José Torres e liderado pelo Dr. Istvan Nagy, foi testado um melhor tratamento para a dor associada a lesões por queimaduras.

O estudo, publicado na revista Journal of Molecular Medicine, foi desenvolvido principalmente no Chelsea and Westminster Hospital (centro reconhecido pela sua unidade de queimados), e no Instituto de Fisiologia da Academia Tcheca de Ciências e na Charles University de Praga, onde tem sido parte dos experimentos.

Uma das características da dor, além de maleável, é a sua capacidade de ser reforçado. Eis o problema da dor associada a queimaduras: “Não é simplesmente uma dor que ocorre no momento em que se faz a queimadura, mas é uma dor que com o passar do tempo vai aumentando”, diz Torres.

O processo de cura passa por remover a pele morta, levantando a camada superior da derme, o câmbio diário de curativos e outros cuidados para evitar infecções, realizar um processo de reabilitação… Uma série de cuidados extremamente dolorosos que geram, por sua vez, novas fases de dor.

Um sentimento que acaba por cronificarse e que leva a continuar experimentando a dor durante dez ou quinze anos depois. Esta situação pode gerar distúrbios psicológicos e “está associada às tendências de depressão, suicídio e outros distúrbios mentais”, disse o cientista.

Por tudo isso, muitos grupos de pesquisadores estão tentando se concentrar em como mitigar esse sofrimento tão intenso e duradouro, e que, até agora, trata-se principalmente à base de opiáceos (como a morfina ou o fentanillo).

“Apesar de que têm importantes benefícios no controle da dor, por sua vez, têm muitos efeitos colaterais” (redução da taxa respiratória e cardíaca, geram dependência e perda de eficácia com o tempo), motivo pelo qual, comenta Torres, é necessário buscar estratégias analgésicas igualmente eficazes, mas sem os efeitos colaterais dos opióides.

Como é produzida a sensação de dor?

Em todo o nosso corpo há cerca de terminações nervosas (nociceptores) especializadas na transmissão da dor e que são ativadas quando recebem uma estimulação nociva suficientemente intensa -como é o caso de uma queimadura-.

Diante desta situação, os canais de sódio presentes em tais neurônios se abrem, permitindo a transmissão do sinal da dor até a medula espinhal.

O canal de sódio Nav 1.7 age como um “interruptor” em neurônios nociceptoras e, portanto, se a estimulação é o suficiente nociva, decide ser ativado.

De ativação, um segundo neurônio localizado na medula espinhal, que interpreta a informação dos nociceptores e, dependendo da intensidade, de novo decidirá se o estímulo for suficientemente nocivo como para transmiti-lo até chegar a diferentes áreas cerebrais.

Nesse caso, as áreas cerebrais se integra a diferentes informações que a pessoa que está recebendo por diferentes pontos do sistema nervoso central, para, finalmente, desenvolver a sensação de dor.

Objetivo: Bloquear o interruptor da dor

A dor é uma interpretação do cérebro. Por isso, o objetivo do estudo era bloquear este interruptor molecular, a fim de observar se, ao travar a primeira ligação entre nociceptores e medula espinhal, se conseguiu inibir a transmissão de informações para o cérebro e, portanto, a sensação de dor.

Segundo comenta o neurobiologista, o que a sua equipe de pesquisa desenvolveu foi um “modelo de dor por queimaduras com ratos”, aos quais aplicou-se a protoxina II (ProTxII), um composto que está presente no veneno detarantula peruana(Thrixopelma pruriens) e que bloqueia de forma específica o canal de sódio Nav 1.7.

Com isso, comprovaram que, efetivamente, alterando esta sinapses reduz significativamente a transmissão da dor na medula espinhal “, com um efeito semelhante ao que produz uma injeção de morfina”, afirma Torres.

Quando chegará a terapia eficaz contra a dor de queimaduras?

Se bem que a protoxina II (ProTxII) não é adequada como estratégia terapêutica em humanos (seria necessário utilizar compostos modificados), após este achado se prevê que estejamos cada vez mais perto de melhorar os tratamentos contra a dor produzida por queimaduras.

“O importante é que, bloqueando o Nav 1.7 conseguimos um efeito paliativo da dor associada a queimaduras; descobrimos a diana terapêutica, trata-se de um avanço muito positivo”, destaca o pesquisador.

Deve-se notar que há uma série de patologias associadas às possíveis mutações do canal de sódio Nav 1.7 (em particular no gene SCN9A). Assim, quando você está mutado em humanos, podemos falar de casos em que a pessoa experimenta sensações aberrantes de dor” de forma crônica (como acontece em patologias como a eritromelalgia ou o transtorno da dor extrema paroxístico).

Enquanto que, se o Nav 1.7 está alterado, ao contrário, o canal de sódio seria afectada a transmissão de sinais de dor, desde o local da lesão no cérebro e, portanto, estaríamos perante o caso de pessoas que não apresentam sensação de dor física (insensibilidade congênita à dor).

“O notável de todas estas patologias associadas a mutações no Nav 1.7 é que para elas já foram desenvolvidos medicamentos que bloqueiam especificamente este canal de sódio e já passaram os controles de segurança e são adequados para uso em humanos. Assim, essa fase já temos superada e podemos redirecionar estes fármacos para verificar se funcionam em pessoas que sofrem de dor de queimaduras, explica o pesquisador.

Em suma, o campo da dor por queimaduras “continua a ser um domínio interessante para continuar a investigar, em especial o processo de geração da dor na fase aguda”, observa o neurobiologista alicantino.

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