Reparar o genoma, uma solução para a fibrose cística cada vez mais perto

Corrigir o defeito genético que causa a fibrose cística com uma potente arma científica denominada edição genómica, é uma porta aberta para a cura desta doença rara. Em isso trabalha a equipe do biólogo do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) Daniel Bacharel

O esquema representa os cinco passos da investigação dirigida pelo cientista Daniel Graduação e que visa reparar o gene expandido que causa a fibrose cística. Universidade de lisboa/Fundação de Pesquisa de Saúde Ilhas Baleares

Sexta-feira 07.09.2018

Sexta-feira 07.09.2018

Quarta-feira 05.09.2018

Este projecto do CSIC e da Fundação de Pesquisa de Saúde das Ilhas Baleares acaba de receber uma das ajudas Merck Serono, que entrega a Fundação Saúde 2000 para continuar a investigação que procura a cura para a fibrose cística, uma doença hereditária que ataca algumas das áreas do corpo que produzem secreções, em especial o sistema digestivo e os pulmões.

Afeta 1 a cada 3.000 recém-nascidos e é uma doença rara, mais frequente. A causa está no gene CFTR, do qual se conhecem mais de 1.900 mutações diferentes. Na população europeia, onde a maior incidência existe uma única das mutações é responsável por mais de 60% dos casos. Daniel Bacharel explica como encontrar uma solução.

  • Quais as etapas de seu projeto de pesquisa cujo objetivo é corrigir esse gene defeituoso?

Começamos com células da pele de pacientes de fibrose cística que, como todas as de seu corpo, apresentam o defeito genético causador da doença, e, a partir delas, nós produzimos um tipo de célula-mãe chamado célula pluripotente induzida. Estas células tem todas as características das células-tronco, mas, além disso, apresentam a vantagem de que podem ocorrer a vontade a partir da pele de qualquer pessoa.

Estas células mãe reparamos o defeito genético de forma que obtemos células que já não têm a doença e que, como são do próprio paciente pode voltar a transplantar sem causar rejeição. É o que se chama de transplante autólogo.

Mas para que essas células possam cumprir uma função, deve primeiro transformá-las em uma célula do tecido onde eles vão ter que começar a trabalhar. As células estaminais são pluripotentes (podem dar origem a praticamente todos os tipos celulares que podemos encontrar no nosso corpo), assim que nós no laboratório lhes dizemos o que queremos que façam. As transformamos em uma célula que é, por exemplo, um precursor de uma célula do pulmão, órgão onde tem o pior efeito da fibrose cística. E lá é onde se trasplantarían.

  • Esse é o processo completo, mas…como é exatamente o passo em que se elimina o gene?

Uma vez produzidas as células-tronco a partir de células da pele, o seguinte é organizar o gene em si. Nos últimos 3 ou 4 anos se têm desenvolvido uma série de ferramentas que nos permitem agir sobre a célula viva, o acesso ao genoma da célula e alterar as áreas que nos interessam. Para isso utilizamos algumas enzimas especiais, criadas em laboratório, que nos ajudam a eliminar a área defeituosa do gene e a substituí-lo por uma cópia boa do gene da célula. É o que se chama edição genómica.

Além de reparar, esta técnica serve também, em outros casos, para eliminar ou adicionar um ou vários genes. É uma ferramenta muito potente que, em combinação com a produção de células-tronco induzidas, revolucionar, nos próximos anos, algumas áreas da Medicina.

A união destas duas técnicas que nos abre a porta para poder consertar os defeitos que estão por trás da maioria das doenças raras. Mas também em outras doenças degenerativas que, ou têm uma base genética ou possam tratar-se mediante a incorporação de nova informação genética das células.

  • Em que ponto está o seu projeto, o que resta a fazer?

Transformamos as células da pele de pacientes em células estaminais, temos reparado o gene em si. Também começamos a fazer diferenciação, isto é, a transformar células pluripotentes em células do epitélio pulmonar, que é onde está o maior problema dos doentes de fibrose cística, o revestimento interior dos pulmões.

Agora estamos trabalhando em produzir essas células em cultura, em laboratório. O último passo seria transplantar essas células pulmonares dos pacientes, mas ainda estamos em fase experimental em ratos.

  • Como e quando pode ser uma realidade?

É muito difícil de dizer e há que ser prudente para não criar falsas esperanças. Acreditamos que temos alguns anos de trabalho.

  • A fibrose cística ainda é uma doença crônica. Está pesquisa é uma porta para a cura?

Se, naturalmente. Quando nós começamos o projeto foi pensando em que, além dos tratamentos que estão ensaiando para prolongar a vida e a qualidade de vida dos pacientes, foi necessário pensar em uma possível solução. Não é a única possível, há laboratórios que estão trabalhando em outras áreas, e também estão obtendo bons resultados. Mas nós pensamos que era o momento de aplicar os mais recentes avanços da medicina regenerativa para a cura da fibrose cística e de passo demonstrar que outras doenças hereditárias podem também ser tratados desta forma. Agora temos que provar isso.

  • Enquanto isso, o rastreio neonatal permite a detecção precoce da doença

O rastreio serve para fazer um diagnóstico correto que permita começar os tratamentos paliativos o mais rápido possível. A fibrose cística, além de afetar os pulmões, também afeta o intestino e o pâncreas. Os problemas digestivos que antes faziam com que o paciente morresse na infância foram corrigidos proporcionando enzimas digestivas para os pacientes. Essa primeira fase de letalidade precoce praticamente resolvido, mas ainda há o problema mais tardio, o dos pulmões.

Os defeitos no gene CFTR fazem com que o pulmão funcionar pior e que o acúmulo de muco e bactérias que produzem infecções recorrentes que com os anos acabam deteriorando o tecido pulmonar. A maior parte dos tratamentos paliativos vão destinados a prevenir e a tratar infecções e, desta forma, melhorar o funcionamento pulmonar. Quando os tratamentos disponíveis são usados desde o início melhoram muito a qualidade de vida e por isso é importante o diagnóstico em idades precoces.

  • E quando a doença está avançada, coloca-se a transplante de pulmão.

Sim, um paciente que sofre de fibrose cística a partir dos 30 ou 40 anos começa a ter graves problemas de deterioração pulmonar e já a única solução que resta é o transplante. Embora os transplantados devem sempre ter cuidado com a rejeição ou com problemas imunológicos, a esperança de vida se lhes aumenta.

  • Este projeto é afetado pelos cortes orçamentais que sofre a investigação?

Claro que está afetando. Enquanto a Alemanha destina 3% do PIB para a investigação, Portugal apenas 1,3. É uma atrocidade. Se não se faz investigação e desenvolvimento tecnológico, nós vamos ter um futuro pouco promissor. O Ministério de Investigação, que se dedicava a riqueza do país no futuro, desapareceu. Menos mal que ainda restam fundações privadas ou semi, como a Fundação de Saúde de 2000, que mantêm o financiamento e que estão salvando não apenas a projetos individuais, mas a própria existência física dos grupos de pesquisa.

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